Toda a Gente a Fugir para a Frente

by João Berhan

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    Edição de autor com o selo da Páreas (cargocollective.com/pareas). A arte é do Pedro Botelho (cargocollective.com/pedrobotelho).

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credits

released June 23, 2012

Gravado e misturado entre a Primavera e o Outono de 2011 em meia garagem a Cascais. Gravações adicionais no Inverno de 2012 em quartos de Lisboa e Leipzig. Masterizado e produzido por João Berhan.

O Tiago Galvão bateu as palmas e tocou a bateria e as percussões com sereno desassossego. O André Galvão tocou um obstinado contrabaixo e um impecável baixo eléctrico. A Teresa Campos trouxe na trouxa a graça, a voz e o gengibre. O Ricardo Ribeiro cantou o clarinete como canta o melro depois da chuva. O José Serrano, menino d’oiro, tocou o trompete em duas faixas e ensinou-me a despir outras nove. Todos me aturaram estoicamente, tramaram arranjos e fizeram seus os meus lamentos.

Eu escrevi e compus todas as canções, cantei-as como soube, toquei as violas e a guitarra eléctrica, o piano de lá de cima, o farfisa de cá de baixo, o piano electrónico, o tecladinho bebé, o harmónio, a melódica azul, o xilofone amarelo, o estilofone, o cavaquinho português e o cavaquinho havaiano, as caixinhas de música, mais palmas, as panelas e as restantes percussões. Também me cheguei à frente nos coros, no caril de legumes e nas misturas e masterizações estereofónicas.

O Pedro Botelho, ilustre ilustrador, abdicou do seu salário milionário de artista e cuidou deste disco como se fosse seu filho.

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João Berhan Portugal

Se lhe baterem à porta, encontram-no a compor o segundo álbum, ou a desembaraçar cabos, ou a queixar-se dos joelhos, ou a fazer lá o que fazemos.

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Track Name: Toda a Gente a Fugir para a Frente
o sérgio o chico o zé mário o samuel
o jorge o bernardo o nuno o manel
o pedro o lobo o tigre também
o cão o coelho o filho da mãe
artistas dentistas domadores de leões
bombeiros pirómanos polícias ladrões
o doente o pobre o preto o branco
o pai o filho e o espírito santo
o apostólico o abstémico o crente o ateu
o tio panteísta o agnóstico e eu
os mártires as virgens maomé jesus
o pau de cabinda e o prego da cruz
as ninfas os ninfomaníacos vários
os púdicos sem púbicos de joelhos missionários
o maricas o macho o facho fascista
o forte o fraco a fufa o fadista
o néscio o tonto o bruto o poeta
o cego o surdo o mudo o profeta
o bêbado o triste o louco o anormal
o morto-vivo o vivo o mortal
Track Name: Tiro no Pé
Por cada palavra que canto um flamingo parte a perna de apoio na lama da savana

É como dar um tiro no pé
e gabar a pontaria
É como ter insónia de dia
e ainda assim beber café
Track Name: Cara de Aladino
Sei que um tal de Peter Pan até rima com o meu nome
mas voar e usar colãs e não crescer e passar fome
é vida de marinheiro, o que é uma contradição
ser pirata borralheiro e ter mais que um coração
Esquece a Dama e o Vagabundo, o Papuça e o Dentuça
que da cama acorda Bela antes que a Esmeralda tussa
(a vaca do Pateta, não a cigana da saia
que enfeitiçou o Corcunda e o deixou morrer na praia)
Não sou Pequena Sereia, Linguado ou Sebastião
preto para Branca de Neve, grande para sétimo anão
São só sonhos de menino, que queres tu que eu faça?
Tenho cara de Aladino, não tenho alma de Mufassa

Um mundo ideal para mim
três desejos, imagino
ser para sempre Aladino
e tu seres o meu jasmim
Track Name: Babel
Sonhei com o dia em que fugia da aldeia
desaforrava o pé-de-meia
e embarcava no batel
que era galé, navio com vela de moinho
aportando de caminho
na cidade de Babel

Aquela língua não vinha nos dicionários
toras, bíblias, prontuários
nada tinham para dizer
Ouvi dizer que para sentir o teu sintoma
falar o teu idioma
tinha de te rescrever

Não sabendo se davas abelhas ou mel
subi à torre de Babel
para me perder em tradução
e lá do alto o amor não era um lugar estranho
a vida tinha outro tamanho
sem tamanha solidão

No tempo entre calar e consentir
eu dei-te tempo de fugir
temendo o medo de temer
Confundiste-me com bom entendedor
meia palavra, meu amor
bastou para te desentender

Não sabendo se eras alma que não morre
voltei a subir à torre
para perceber depois
que aquele mundo era no fundo moribundo
haveria um mais profundo
que monólogo a dois

Se me encontrares, destraça a perna e para a linguagem
traça um plano de viagem
que me dê uma nova cor
que a coerência não faz parte dos meus planos
tenho vinte e quantos anos?
Já nem sei morrer de amor

Afaga a lâmpada, apaga a lamparina
se o meu escuro te ilumina
e não tens nada a perder
vais ensinar o ancião sobre essa sina
assina o peito da menina
e assassina a mulher
Track Name: Alface Oculta
Com todo este património, sapato chique a valer
não me chamarão campónio, não me saberão esquecer
Botão de punho, anel na mão, servem-me o fato e a gravata
construí o meu brasão com pedaços de sucata
O sonho que à frente punha era a nata querer prová-la
com a fome que na unha, com as notas que na mala
Há quem ganhe, há quem lute e luta enquanto eu ia pondo
mais champanhe no teu flûte, puta da Conde Redondo

Desculpa, minha querida
não te quis fazer sofrer
Na verdade, nesta vida
nunca fui quem queria ser

Queria até ser artista de bolero ou patinagem
sou um homem progressista, tolero a paneleiragem
que o meu puto era maricas e fui eu que achei por bem
inscrever na sua lápide aqui jaz filho de alguém
O meu pai não era o louco de lá de Campo de Ourique
chiça, penico, chapéu de coco, bateu as botas altas e stick
padeceu de falecimento pendurado na parreira
destinou-me em testamento um pulmão e uma carreira
Já despachei a madame para Cuba de viagem
será cicerone de certame de cenas de alta cilindragem
Queria uma porca à mesa que o fosse também na cama
calhou-me esta lady tesa, quando transa diz que me ama

Queimei o extracto bancário das minhas contas na Suíça
alienei o nosso erário para fugir à Justiça
Se hoje sou do jet set quando ainda ontem era trolha
entre a hipoteca e o sabonete, venha o diabo e escolha
Não me olhes a meia haste, faz-te cúmplice, de resto
sempre me consideraste relativamente honesto
Procuram-me em toda a parte, condenado há mais de um ano
mas se os homens são de Marte dão-me asilo em Urano
que a Terra perdeu encanto, considero até Plutão
Entretanto, no entanto, canto mais uma canção
Track Name: Batata Frita
Tô pa lá de Bagdá pá tô pa lá de Islamabá pá tô na rua toda nua roendo batata crua olha a lua pá tá longe no entanto pá tá perto tipo grande tipo fixe mais ou menos tipo ao certo como soja e tofu vou à loja como tu mas as minhas sapatilhas são de ervilhas e bambu no Verão fui de inter-rail pá Europa de Leste na backpack o kit freak que levei pó Sudoeste é do grande capital a culpa que o planeta seque é pecado capital mas até curto um big mac tô pa lá de Bagdá pá tô pa lá de Islamabá pá tô aflita tô sem guita pa pedir batata frita no meu menu natura pretensamente frita
Track Name: Gigante
Três dias após degolarem o anão
pedia o gigante que lhe dessem mais tempo
a criança de bibe de trazer pela mão
tremia de frio, temia o vento
- Mamã, serei trolha, de andaime em andaime
de trato educado e perfil elegante
- Se comeres as batatas, prometo-to, Jaime
deixar-te assistir a esfolar o gigante

O piloto drogado
o avião despenhado
e a gordura
em pedaços
dos braços
chiando
E o cego ao Chiado
nem olhos nem fado
com a candura
em delírios
nos lírios
sangrando
Track Name: Bairro Alto
Em Boa Hora os teus corações
só por um segundo
bateram no fundo
renderam ao mundo
as suas condições

Se não queres abrir a caixa de pandora
enfeita a saudade
no Poço da Cidade
diz meia verdade
e manda-me embora

De corpo descalço em terra Queimada
nem pedras do chão
nem palmas da mão
nunca saberão
a minha morada

Se a rua acabou e não lhe vês fim
não fiques à Espera
canta como a Severa
que eu, queimando a quimera
caibo dentro de mim

Amanheces diferente, indiferente ao torpor
culpas os Inglesinhos
por não teres mais vizinhos
que os corvos nos ninhos
e o ébrio cantor

Dá-me a mão, que eu não te falto
sê quem sabes só num salto
no Bairro Alto

Se temos fé em sermos ateus
converte-me à pressa
e paga a promessa
de que só na travessa
és Fiel a Deus
Track Name: Réquiem Hidrográfico
Despe-me o couro
talha-me em ouro
destina-me um talhão
no Douro

Esquece o passado
desenterrado
cai noutra tentação
no Sado

O meu caminho
faço-o sozinho
honra-me a solidão
no Minho

Segue o cortejo
se é teu desejo
enterra-me o caixão
no Tejo
Track Name: Entrelinhas
Explica como essa canção se sou tão solicitada
e como não te dar a mão quando estou tão desamparada
Nunca como nos teus abraços esperei compreensão
mas procuro noutros braços esperança e redenção
que o nosso amor nunca foi morno, tem contorno quente e frio
o que chamas dor de corno é o riso derramando o rio
Nas metáforas encerro esquecer como quem pode
que a tua língua sabe a ferro e me pica o teu bigode
O regresso é um retrocesso, mas confesso-me perdida
se te minto é um labirinto, já me sinto de saída
Voltaste a tecer a trama no pretérito imperfeito
mas ficaste tu com a fama, eu fiquei com o proveito
Da viagem talvez vá lembrar a cor que tu não tinhas
é a vantagem de saber dizer amor nas entrelinhas
Track Name: Naftalina
Acorda, a corda não te amarra, o que achas que é saudade
são risos de verrugas, rugas da terceira idade
que o bom das bodas não é Deus, a missa ou o arroz
é no teu dedo de noivado o anel ser quem o pôs

Embora agora a casa cheire a sopa e naftalina
ainda me rendo às rendas da tua roupa de menina

De sono, o Outono faz a cama às flores do jardim
Se te queimar a chama do fogão, chama por mim
Enxuga o enxoval, borda no linho o algodão
se são já sete os netos que como teus filhos são

Se dura na moldura a dura cara de avô
limpa-me o pó, pendura-me, amanhã já cá não estou

Embora agora a casa não me lembre da menina
ainda me rendo às rendas e ao teu cheiro a naftalina